top of page

Cila e Caríbdis

  • há 7 dias
  • 4 min de leitura

São Paulo, 10 de agosto de 2026.


Caros(as) cotistas e parceiros(as),      

As grandes jornadas raramente são vencidas apenas pela força. Elas exigem clareza de propósito, humildade para reconhecer os próprios erros, disciplina para resistir às tentações do caminho e, talvez acima de tudo, disposição para tomar decisões difíceis quando todas as alternativas parecem carregar algum custo. 


A Odisseia, poema épico atribuído a Homero, foi composta por volta de 700 a.C. Embora ambientada após o fim da Guerra de Troia, por volta de 1200 a.C., a obra foi escrita numa época de consolidação das cidades-estados e de expansão do comércio marítimo - um mundo em rápida transformação, no qual Homero narra uma jornada que se tornou uma reflexão atemporal sobre como atravessar períodos de incerteza, sem perder de vista o destino final.


Uma das passagens mais interessantes é a travessia entre Cila e Caríbdis. Ao retornar para Ítaca, Odisseu precisa cruzar um estreito onde dois perigos ocupam margens opostas: de um lado, Cila, um monstro que captura alguns marinheiros; do outro, Caríbdis, um redemoinho capaz de engolir todo o navio. Não existe rota segura - afastar-se de um significa aproximar-se do outro. A escolha deixa de ser entre o certo e o errado, ou entre o bom e o ruim, e passa a ser entre uma perda limitada e uma destruição muito maior.


Há um detalhe do episódio frequentemente esquecido: Homero conta que Odisseu não revela aos remadores o que acontecerá na travessia, nem que alguns homens inevitavelmente serão perdidos. Seu receio é que, sabendo do destino, eles abandonem os remos, tentem escapar do monstro e acabem conduzindo toda a embarcação para Caríbdis. Em certos momentos, o comportamento dos indivíduos altera o próprio desfecho dos acontecimentos.


Um jogo de rejeição


Nos próximos meses, o mercado brasileiro passará a dedicar atenção crescente às eleições presidenciais de 2026. Embora ainda falte tempo para o pleito, nossos estudos mostram que a volatilidade dos preços dos ativos por conta da eleição deveria aumentar já nas próximas semanas.

Até aqui, porém, a eleição parece menos uma disputa entre projetos de país e mais um amplo jogo de rejeição. As pesquisas mostram níveis elevados de resistência aos principais candidatos e um eleitorado que demonstra mais clareza sobre quem não deseja eleger do que sobre quem gostaria de ver na Presidência.


Essa característica produz uma dinâmica distinta das eleições tradicionais. Quando o voto é motivado pela preferência, pesquisas tendem a capturar escolhas relativamente estáveis. Quando passa a ser motivado pela rejeição, a decisão torna-se mais estratégica: o eleitor não procura necessariamente seu candidato ideal, mas aquele que julga capaz de evitar o resultado que considera mais prejudicial.


Nessas circunstâncias, declarar antecipadamente uma preferência também pode deixar de ser trivial. Parte do eleitorado pode optar por não revelar seu voto, seja por desconforto social, seja porque sua decisão ainda depende da evolução da disputa e da percepção de viabilidade dos candidatos. Em ambientes altamente polarizados, a própria divulgação das pesquisas influencia expectativas, alianças e comportamento dos eleitores, tornando mais difícil separar fotografia e filme.


Não se trata de afirmar que as pesquisas estejam erradas - mas, em eleições dominadas pela rejeição, talvez elas retratem menos uma decisão definitiva e mais um processo de escolha ainda em formação. Pequenas mudanças de percepção podem produzir deslocamentos relevantes nas semanas finais da campanha, especialmente quando grande parte do eleitorado decide entre alternativas que considera imperfeitas.


Nesse sentido, chamam a atenção os números das pesquisas de intenção de voto no 2º turno. Assumindo um cenário entre Lula e Flávio Bolsonaro, a média de pesquisas compiladas pelo UBS mostra favoritismo de Lula, com 53% das intenções de voto. Ao verificarmos a abertura regional, no entanto, percebemos uma diferença significativa de Flávio no Sudeste.


Flávio não tem o mesmo carisma de seu pai - mas será que a rejeição ao candidato é alta o suficiente para que eleitores do Sudeste, que representam 46% do eleitorado do país, mudem seu voto em quatro anos? Será que, assim como Odisseu, os eleitores não estão revelando sua intenção de voto, com receio de serem julgados por conduzir parte de sua "tripulação" a um resultado indesejado?


É justamente essa característica que aproxima o momento político brasileiro da travessia descrita por Homero. A sensação predominante não parece ser a de escolher um porto desejado, mas a de encontrar o caminho que minimize os riscos da viagem. Como na Odisseia, a decisão deixa de ser entre o melhor dos mundos possíveis e passa a ser entre perdas inevitáveis.



A perda maior


A eleição deste ano acontece em um contexto econômico pior para o país. O gráfico abaixo mostra a dívida bruta histórica do Brasil e as expectativas em diferentes ciclos eleitorais. É claro que o pleito atual acontece em uma situação de endividamento mais desafiadora para o país. Já nos níveis atuais, o custo dessa dívida está acima dos últimos anos, por conta da taxa de juros mais altas. O gráfico abaixo mostra os níveis de gastos com juros ao longo do ano: Sem um ajuste fiscal forte e crível, é possível que a dívida bruta atinja 100% do PIB nos próximos anos. Se essa conta continuar aumentando dessa forma, a necessidade de um esforço fiscal será ainda maior à frente.

 

O ambiente externo também segue desafiador. As taxas de juros de longo prazo nos Estados Unidos, por exemplo, continuam em patamares elevados. Volatilidade da política americana, elevado déficit e diversificação de investimentos para fora do país têm contribuído para esse movimento.

 

Esse é o verdadeiro redemoinho de Caríbdis: o custo de não agir cresce a cada ano que a decisão é adiada.



Nosso Posicionamento


Dahlia Total Return: Em julho, a alta de preços de petróleo e uma realização nas empresas ligadas a inteligência artificial nos Estados Unidos levaram a uma maior volatilidade do mercado. Mantivemos o nível de risco do fundo e sua composição estáveis. Seguimos com uma posição abaixo da média em ações no Brasil, enquanto mantemos a alocação em ações nos Estados Unidos e hedges em moedas.


Dahlia Macro Global: Mantivemos estáveis os níveis de risco do fundo, seguimos comprados em ações dos Estados Unidos, principalmente em semicondutores e hyper scalers.


Dahlia Ações: Seguimos comprados em ações no Brasil, posicionados principalmente em bancos, energia elétrica e cíclicos domésticos.



Agradecemos a leitura, a escuta e a confiança,

Equipe Dahlia


+55 11 4118-3147
















CRÉDITOS FINAIS:

Imagem: Chat GPT

Gráfico 1: Dahlia Capital

Gráfico 2: UBS

Gráfico 3: UBS



Comentários


bottom of page