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Um novo fed

  • 7 de jul.
  • 5 min de leitura

São Paulo, 07 de julho de 2026.


Caros(as) cotistas e parceiros(as),      

Há momentos em que a economia caminha com direção clara. Em outros, os dados se contradizem o suficiente para sustentar quase qualquer narrativa. O mercado de trabalho desacelera, mas não desaba. A inflação incomoda, mas parte dela vem de choques temporários. A produtividade melhora, mas ainda não sabemos se é uma nova fronteira tecnológica ou apenas ruído estatístico. 


Os Estados Unidos parecem viver esse segundo tipo de momento. Uma espécie de "animação suspensa": nem expansão exuberante, nem recessão à vista; nem desinflação consolidada, nem nova espiral de preços; nem um Fed (o banco central americano) pronto para cortar juros, nem um Fed decidido a apertar ainda mais a política monetária.


Os dados de emprego de junho reforçaram essa leitura - mesmo sabendo que ninguém acerta esse número com regularidade. A criação de vagas veio abaixo do esperado e os meses anteriores foram revisados para baixo. Pedidos de demissão voluntária, que costumam subir quando o trabalhador se sente seguro, seguem em nível baixo. Os salários caminham para um ritmo mais compatível com a meta de inflação do Fed.


O resultado é um mercado de trabalho difícil de rotular: fraco demais para pressionar a inflação, mas ainda não fraco o suficiente para obrigar o Fed a cortar juros.


E há, de fundo, uma revolução tecnológica em curso. A inteligência artificial pode se tornar a maior força desinflacionária da próxima década. Se ela elevar a produtividade - produzir mais com menos - e reduzir o custo de serviços que hoje dependem de muita mão de obra qualificada, a economia americana poderá crescer sem gerar a mesma pressão sobre os preços de antes.


Mas a ordem dos acontecimentos importa. Antes de colher esse ganho de produtividade, os Estados Unidos estão vivendo uma onda de investimento em data centers, semicondutores, energia e infraestrutura digital. Essa fase de construção tende a consumir capital, energia e mão de obra especializada - o que pode pressionar preços para cima. Ou seja: a mesma tecnologia que promete baratear a economia no futuro pode encarecê-la no presente.


É esse o quebra-cabeça do Fed hoje. Ele não está apenas decidindo entre cortar, manter ou subir os juros. Está tentando entender que tipo de economia tem diante de si.



A mudança que importa


Nesse cenário, assumiu o comando do Fed Kevin Warsh, indicado por Trump. Em sua primeira reunião, em junho, o Fed manteve os juros parados pela quarta vez seguida.


Achamos que o mais importante em Warsh não é ser "hawk" ou "dove" - os rótulos de sempre para dizer se um dirigente do Fed tende a subir ou cortar juros. O traço mais relevante da sua gestão é outro: a tentativa de reduzir o papel do Fed como narrador permanente dos mercados.


Desde a crise de 2008, o Fed passou a falar muito mais. Sinalizar com antecedência o que pretende fazer ("forward guidance"), publicar previsões detalhadas de juros de cada dirigente ("dot plots"), fazer coletivas longas e discursos frequentes. Em momentos de crise, isso fazia sentido: com os juros em zero, comunicar bem era parte do remédio.


Com o tempo, o mercado passou a depender do Fed não só para saber o preço do dinheiro, mas para saber o que pensar sobre o futuro. Isso criou uma relação um pouco circular: o Fed observa o mercado, o mercado observa o Fed, e os dois reagem à reação um do outro - como um professor que passa tantas dicas antes da prova que os alunos param de estudar a matéria e passam a estudar só as dicas.


Warsh parece querer romper parte desse ciclo. As cinco forças-tarefa anunciadas pelo Fed - comunicação, balanço patrimonial, uso de dados, produtividade e emprego, e arcabouço de inflação - podem parecer só um exercício burocrático. Mas o próprio Warsh já deixou claro o que busca: trocar estatísticas oficiais, divulgadas com um ou dois meses de atraso, por fontes de dados privadas e em tempo real. Na prática, ele quer que o Fed decida olhando o que está acontecendo agora, não "ecos do passado".


Essas forças-tarefa dificilmente mudam a próxima decisão de juros: o Fed continuará refém dos dados de inflação e emprego, como sempre. Mas podem mudar algo maior: a forma como o Fed enxerga a economia e, portanto, como o mercado reage a isso.



De volta ao básico


O debate mais comum ainda é "o Fed vai cortar ou subir os juros?". Mas talvez a pergunta certa seja outra: qual vai ser a nova forma de o banco central e o mercado conversarem entre si?


Se Warsh for bem-sucedido, o Fed vai falar menos sobre o futuro e mais sobre como reage ao presente. Vai se preocupar menos em suavizar a volatilidade do mercado e mais em controlar a inflação. Vai admitir mais abertamente que seus modelos erram, mas talvez fique menos disposto a acalmar toda incerteza do mercado.


Isso pode gerar um paradoxo interessante: um Fed mais disciplinado, no curto prazo, pode ser um Fed menos previsível. E um banco central menos previsível tende a exigir do investidor um prêmio de risco maior para compensar essa incerteza.



O que isso significa?


Para os mercados americanos, isso significa que os juros de longo prazo devem continuar reagindo com força a cada novo dado de inflação e emprego - mesmo que a taxa básica fique parada por um bom tempo.


O movimento mais importante dos próximos meses talvez não esteja na taxa básica de juros em si, mas em outros três lugares: no prêmio que os investidores cobram para carregar títulos mais longos (o chamado "term premium"), na volatilidade dos juros, e na crença de que o Fed sempre vai socorrer o mercado quando ele cair forte (o "Fed put").


Para os mercados emergentes, o ambiente é misto. Por um lado, é bom não termos pela frente um novo ciclo agressivo de alta de juros nos EUA. Por outro, um Fed menos disposto a guiar o mercado, com uma curva de juros americana mais volátil, reduz a visibilidade para quem investe em moeda, juros longos e ativos de risco fora dos Estados Unidos. É um cenário melhor do que uma reaceleração estrutural da inflação americana, mas pior do que um ciclo clássico de corte de juros bem comunicado.


No Brasil, essa diferença importa bastante. Boa parte do apetite por risco por aqui depende não só da direção dos juros americanos, mas da previsibilidade das condições financeiras globais. Um Fed em pausa, porém mais calado, não traz o mesmo alívio que um Fed em ciclo claro de corte de juros. Por outro lado, se a inflação americana continuar perdendo força nos indicadores que realmente importam e o mercado de trabalho seguir desacelerando de forma ordenada, o ambiente externo não precisa ser hostil ao Brasil.


Nós, que somos críticos à forma que as expectativas de inflação são estimadas, estamos otimistas. Talvez, essas forças-tarefa consigam calibrar melhor as decisões de política monetária, onerando menos setores e camadas mais sensíveis ou vulneráveis da economia. Continuamos acreditando que, no longo prazo, as forças desinflacionárias tendem a vencer. Tecnologia, ganhos de produtividade e energia barata devem impor um teto à inflação.



Nosso Posicionamento


Dahlia Total Return: Em junho, mantivemos o nível de risco do fundo inalterado. Porém, seguimos reduzindo risco em ações no Brasil, enquanto aumentamos a alocação em ações nos Estados Unidos e mantemos alguns hedges em moedas.


Dahlia Macro Global: Seguimos comprados em ações dos Estados Unidos e de países emergentes. Nos EUA, nosso foco continua no setor de tecnologia.  


Dahlia Ações:  Seguimos comprados em ações no Brasil, em linha com o mandato do fundo. Seguimos posicionados principalmente em bancos, energia elétrica e cíclicos domésticos.


Agradecemos a leitura, a escuta e a confiança,

Equipe Dahlia


+55 11 4118-3147
















CRÉDITOS FINAIS:

Imagem: Chat GPT



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