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Choques e exageros

  • há 7 dias
  • 4 min de leitura

São Paulo, 09 de junho de 2026.


Caros(as) cotistas e parceiros(as),


Desde o final de abril, os ativos brasileiros foram marcados por uma elevada volatilidade, por conta de revisões expressivas de expectativas nos mercados financeiros globais e domésticos. A sobreposição de um desfecho ainda incerto do conflito no Irã, ruídos políticos no Brasil, uma inflação persistente, a força do desenvolvimento da inteligência artificial e ajustes de comunicação de bancos centrais criou um ambiente de incerteza incomum, no qual ativos de diferentes perfis sofreram reprecificações simultâneas.

Em alguns casos, a intensidade dos movimentos pareceu refletir não apenas a informação nova em si, mas também o receio de que ela sinalizasse uma mudança mais ampla e duradoura de regime.


No plano internacional, o fator dominante foi a escalada do conflito envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã. Ataques e respostas recíprocas vem mantendo uma forte alta nos preços do petróleo, com repercussões imediatas sobre as expectativas de inflação e custo de produção nas empresas. Choques energéticos desta natureza ocupam posição particular na análise macroeconômica, pois acreditamos que preços de petróleo são a causa raiz de choques de inflação.


Seus efeitos podem ser transitórios, caso a tensão se dissipe sem alterar estruturalmente o equilíbrio de oferta, ou persistentes, caso modifiquem rotas de abastecimento, capacidade de produção ou percepção de risco geopolítico de longo prazo. A distinção entre esses dois cenários é importante para avaliar as implicações sobre política monetária e crescimento global.


No âmbito das políticas monetárias, declarações de membros do Federal Reserve - sob a nova liderança de Kevin Warsh - e do Banco Central Europeu sinalizaram cautela diante do ambiente inflacionário renovado. O debate interno sobre o ritmo adequado de ajustes nas taxas de juros, que parecia encaminhado em direção a um ciclo mais definido de flexibilização, foi reaberto.


Dados mais fortes de emprego na economia americana também prejudicam com esse cenário. Os mercados voltaram a precificar um cenário em que os juros nos países centrais permanecem em patamar restritivo por período mais prolongado do que se supunha.


No Brasil, o ambiente combinou pressões macroeconômicas e ruídos de natureza política. A divulgação de indicadores de inflação acima das expectativas contribuiu para o alongamento da curva de juros futuros e elevação dos prêmios de risco soberano, colocando em discussão a trajetória da política monetária doméstica.


No debate entre impactos transitórios ou estruturais da alta dos preços de petróleo, a dinâmica dos bancos centrais é um dos primeiros sinais. A recente alta dos juros futuros quase eliminou a expectativa de qualquer corte adicional de juros por parte do Banco Central do Brasil. Isso possivelmente demanda quedas maiores e duradouras de preços de petróleo para cortes mais fortes da taxa de juros.


O gráfico abaixo mostra as estimativas das taxas SELIC implícitas pela curva de juros nos próximos trimestres no meio de abril e as atuais. É impressionante como em pouco mais de um mês as expectativas mudaram:


Esta é uma mudança relevante. Ao observarmos o gráfico, notamos que a taxa SELIC implícita para julho de 2027 subiu quase 200 pontos. Ao analisarmos as empresas listadas no Brasil (excluindo os setores financeiro, de petróleo e mineração), a estimativa total de lucro para 2026 representa 18,7% da dívida líquida atual (mediana de 15,8%). Assumindo juros 200 pontos mais altos, o impacto direto seria de 10,7% no lucro estimado.


No front político, desdobramentos envolvendo o senador Flávio Bolsonaro e o banqueiro Daniel Vorcaro - relacionados a doações e questionamentos sobre financiamentos - adicionaram volatilidade ao ambiente. O real oscilou em função de fluxos internacionais, enquanto o Ibovespa também foi prejudicado por uma safra de resultados trimestrais ruim.


Em contraposição ao ambiente de aversão ao risco, observou-se um fluxo robusto e contínuo de capital global para o setor de inteligência artificial, sustentado por expectativas de ganhos de produtividade de longo prazo e pela concentração de investimentos em empresas de tecnologia de ponta.


Esse movimento causou uma reversão do fluxo de investidores estrangeiros na bolsa brasileira. O gráfico abaixo mostra o fluxo de investidores estrangeiros acumulados desde o início do ano passado:

A lógica do gráfico é simples. Desde o meio de 2025, investidores estrangeiros buscavam diversificar sua concentração em ativos americanos. Esse movimento se intensificou com a preocupação de que algumas empresas e setores poderiam sofrer disrupção com o avanço da inteligência artificial. Porém, países e empresas produtoras de commodities, como é o caso do Brasil, estariam menos expostas a esses riscos. Essa visão mais benigna durou apenas alguns meses. Crescimento de receita e resultados mais fortes que o esperado de empresas como Anthropic e OpenAI mostraram que a monetização dos lucros da inteligência artificial pode vir mais rápido que o esperado.


Olhando adiante, o cenário permanece dependente da evolução de variáveis com alto grau de imprevisibilidade. A trajetória do conflito no Oriente Médio e seus efeitos sobre os preços de energia, a postura dos bancos centrais diante de uma inflação que pode se mostrar mais resistente, a dinâmica fiscal e política doméstica e o ritmo de adoção das tecnologias de inteligência artificial - com seus impactos sobre produtividade, emprego e estrutura de mercados - são os vetores que monitoramos com maior atenção. Nenhum desses temas oferece resolução imediata, o que recomenda prudência, mas não imobilismo.


Se todos esses choques são estruturais ou temporários ainda não temos como prever. Por hora, reduzir riscos e adotar uma postura mais cautelosa parece ser o melhor caminho.




Nosso Posicionamento


Dahlia Total Return: Em maio, reduzimos o nível de risco do fundo em virtude dos desenvolvimentos recentes, descritos nesta carta. A redução de risco foi principalmente em ações no Brasil, enquanto aumentamos a alocação em ações nos Estados Unidos e mantemos alguns hedges em moedas.


Dahlia Macro Global: Seguimos comprados em ações dos Estados Unidos e de países emergentes. Nos EUA, nosso foco continua no setor de tecnologia.


Dahlia Ações:  Seguimos comprados em ações no Brasil, em linha com o mandato do fundo, mas com uma posição de caixa mais alta. Seguimos posicionados principalmente em bancos, energia elétrica, commodities e cíclicos domésticos.



Agradecemos a leitura, a escuta e a confiança,

Equipe Dahlia


+55 11 4118-3147
















CRÉDITOS FINAIS:

Imagem: Chat GPT

Gráfico 1: Bloomberg e Dahlia

Gráfico 2: Bloomberg e Dahlia



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