Carta da Equipe de Gestão Set/20

São Paulo, 01 de outubro de 2020.

Caros cotistas, investidores e parceiros,

O melhor trade é aquele que nunca acaba

Mais da metade dos papéis da carteira inicial do Dahlia Total Return continua em nosso portfolio até hoje, depois de quase 2,5 anos. E esperamos continuar investidos nessas empresas por muito mais tempo. Quando explicamos nosso processo de investimento em nossa primeira carta, dissemos que combinávamos o macro global com o micro assimétrico dos ativos.

O que isso significa? O cenário macro engloba todos os fatores que não estão sob controle das empresas, como, por exemplo, a economia, a política e a demografia.

Fatores micro são aqueles específicos das empresas nas quais investimos. Alguns exemplos são: estratégias de crescimento, estrutura societária, endividamento, ESG (sigla em inglês para Ambiental, Social e Governança), ativos intangíveis (como marcas) e diferenciais competitivos. E por que assimétricos? Porque focamos em maximizar a relação entre o retorno e o risco da carteira.

Na época, não falamos sobre um terceiro elemento também crucial em nossa estratégia: o tempo. Na Dahlia, focamos em teses e visões de médio e longo prazo, que precisam de tempo para maturarem. Selecionamos boas empresas, com bons ativos, boas pessoas e boas oportunidades de crescimento, que precisam de tempo para serem executadas. A mágica de acumular crescimento sustentável só vem com o tempo.

O tempo é um dos principais fatores que está sob controle dos investidores, para torná-los mais bem sucedidos financeiramente. Esse é um dos pontos principais do livro The Psychology of Money, de Morgan Housel, que exploraremos em mais detalhes a seguir.

A Era do Gelo

Os cientistas acreditam que a Terra passou por cinco eras do gelo, que criaram grandes camadas de gelo sobre a superfície terrestre. A mudança de clima influenciou a vida no planeta, enquanto o peso adicional do gelo mudou relevos por todos os cantos.

Há diferentes teorias sobre as causas das eras do gelo. No início do século XX, o cientista sérvio Milutin Milankovic estudou a posição relativa da Terra com outros planetas e percebeu que a força gravitacional do sol e da lua impactavam o movimento da Terra e sua inclinação ao sol. Partes do planeta poderiam receber um pouco mais ou menos de radiação solar que o normal, em determinados períodos da história.

Porém, fora do senso comum da época, o meteorologista russo Wladimir Koppen percebeu algo bastante importante e curioso. Não foram invernos rigorosos que levaram às eras do gelo, mas sim verões um pouco mais amenos.

Verões amenos derretem menos a neve do inverno anterior. A neve restante leva a um acúmulo mais fácil de neve no inverno seguinte. Mais neve na Terra reflete mais os raios solares, levando a mais verões amenos. Centenas de anos disso levaram às eras do gelo.

O ponto interessante aqui é como uma pequena mudança de comportamento, por um longo período, teve uma consequência enorme.

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Trazendo isso para o mundo dos investimentos. Qual o segredo de Warren Buffett? O maior investidor de todos os tempos tem uma fortuna estimada em US$84,5 bilhões. Muitos atribuem seu sucesso aos excelentes retornos que ele tem obtido de, na média, 22% ao ano.

Porém, este número não conta a história toda. Warren Buffett talvez seja um dos investidores vivos mais longevos do mundo. Ele já acumula 80 anos de investimentos, tendo começado aos 10 anos de idade. “Sua habilidade é investir, seu segredo é o tempo.”

O fundo Verde, de Luis Stuhlberger, é um dos fundos mais bem sucedidos do país. Em pouco mais de 20 anos de história, o fundo está próximo da cota 200. Ou seja, R$1 investido no fundo em 1997 valeria hoje quase R$200. São retornos melhores até que os de Warren Buffett. Porém, o fundo existe há “apenas” 23 anos. Qual seria o valor da cota do Verde se assumíssemos a mesma rentabilidade histórica por mais 40 anos? 1,5 milhão!!!

Dos US$84,5 bilhões da fortuna de Buffett, US$84,2 bilhões foram acumuladas após seu aniversário de 50 anos. US$81,5 bilhões vieram depois dos 65 anos. É a magia do tempo.

Investir bem não significa necessariamente maximizar os seus retornos. Mas sim ter retornos razoáveis e consistentes, que podem ser repetidos por um longo período.

Já pensou no poder de fazer cedo uma previdência para você ou para seus filhos?

Sobre o pessimismo

Como investidores, sempre encontramos bons motivos para nos preocupar. Escrevemos em nossa carta sobre os fantasmas do mercado que as grandes preocupações do mercado dos últimos 8 anos nunca se materializaram.

Mas por que as notícias negativas recebem tanta atenção? Housel argumenta que o “pessimismo simplesmente parece mais inteligente e mais razoável que o otimismo”.

Otimistas parecem ingênuos, complacentes com risco e simplistas demais. Mas há que caracterizá-los. “Otimismo é a crença que as chances de um resultado favorável estão em seu favor ao longo do tempo, mesmo com tropeços ao longo do caminho.” Afinal, o mundo tende a ficar melhor, para a maior parte das pessoas, na maior parte do tempo.

O gráfico a seguir mostra os retornos trianuais da bolsa americana nos últimos 50 anos. Durante mais de 80% do tempo, os retornos foram positivos. São pequenos movimentos, consistentes ao longo do tempo, menos percebidos e que raramente viram capas de jornal.

Mas um pouco de paranoia também é bom. O otimismo nos permite participar de grandes movimentos em prazos maiores de tempo. O ceticismo e o questionamento constante, que Housel define como paranoia, nos mantém vivos e nos permite aproveitar oportunidades de mercado quando aparecem.

Fatores de curto prazo também influenciam preços e não podemos ser alheios a isso. Nossas carteiras sempre carregam algum tipo de proteção e calibramos os riscos dos fundos levando em consideração esses cenários.

Otimismo e paranoia. “Otimistas sobre o futuro, mas paranoicos sobre o que pode nos evitar de chegar lá.” Vale a leitura.

 

O passado

Setembro foi mais um mês ainda volátil para os ativos de risco. O Ibovespa caiu 4,8%, seguindo o desempenho da bolsa americana, que caiu 3,9% (S&P500). A proximidade das eleições americanas, o risco de uma frustração com a recuperação econômica por uma segunda onda da COVID e a deterioração da situação fiscal brasileira contribuíram para esse desempenho.  

O futuro

Seguimos otimistas com os ativos de risco. A combinação de uma SELIC a 2% e um dólar alto nunca foi testada antes. As empresas listadas na bolsa podem se beneficiar muito disso. Os estímulos econômicos ao redor do mundo devem continuar a impactar positivamente as economias. A manutenção dos juros globais em patamares baixos deverá sustentar os preços dos ativos de risco.

Desde o início, o Dahlia Total Return teve um retorno acumulado de 66,4% (início em mai/18), o Dahlia Ações de 17,2% (jun/19) e o Dahlia Global Allocation de 26,2% (dez/19).

Obrigado pela confiança,

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Créditos Finais:

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Gráficos: Bloomberg e Dahlia Capital

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