Carta da Equipe de Gestão Fev/20

São Paulo, 03 de março de 2020.

Caros cotistas, investidores e parceiros,

Os mercados param de panicar...

“Os mercados param de panicar quando os bancos centrais começam a panicar”. Este é um dos ditados mais importantes para lembrarmos, em situações de grande estresse de mercado, como vivemos nas últimas semanas.

Uma forte queda da bolsa, potencialmente antecipando algum grande evento negativo, pode se tornar uma profecia auto-realizável. A queda das bolsas e a alta do dólar, por exemplo, impactam negativamente a confiança das pessoas e empresas, levando a uma desaceleração da economia. Ela, por sua vez, leva a uma queda ainda maior das bolsas.

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Quando então os mercados entram em uma grande espiral negativa, há a “necessidade” de um agente externo interferir para resolver o problema. Os únicos agentes externos capazes de executar tal papel por enquanto são os governos, principalmente através dos bancos centrais. Como grande fiador dos mercados globais, o Fed (banco central americano) é chamado para agir. Esse conceito é chamado de Fed put (opção de venda contra o Fed). Caso dê tudo errado, o Fed irá salvar o dia.

Por outro lado, os bancos centrais não podem ser completamente permissivos em “salvar” os mercados a toda hora. É como um pai que sempre compra um brinquedo para um filho que chora, para convencê-lo a sair da loja. Acreditem: a criança irá chorar todas as vezes que passar em frente à loja de brinquedos. 

Esta preocupação, chamada de risco moral (moral hazard), acontece quando uma parte tem um incentivo de correr um risco desproporcionalmente mais alto em busca de um benefício maior, uma vez que a outra parte seria muito mais prejudicada caso algo de errado acontecesse. 

Ou seja, os bancos centrais não podem atuar sempre que há volatilidade no mercado, mas têm que ser cautelosos em não deixar uma crise financeira se tornar uma crise econômica. 

E quando muito é muito?

Olhamos para vários indicadores diferentes para monitorar os mercados. Um dos que mais gostamos é o indicador que mede as condições financeiras do mercado.

Este indicador (Bloomberg US Financial Conditions Index) mostra o nível de estresse nos mercados americanos, para avaliar a disponibilidade e custo de crédito, em comparação a níveis “normais”. Um número negativo indica que a situação de crédito está mais apertada, o que indica uma eventual desaceleração econômica adiante.

No último dia do mês, este indicador chegou ao mesmo patamar do final de dezembro de 2018. Foi nesse ponto que o Fed indicou que pararia de aumentar os juros nos EUA e que cortes eram possíveis ao longo de 2019. Hoje, o mercado precifica que o Fed irá cortar os juros em pelo menos 25 pontos base 18 de março. 

Um outro indicador que gostamos de acompanhar é o prêmio de risco de mercado implícito na bolsa americana. Ou seja, quanto um investidor ganha a mais por correr o risco de bolsa, ao invés de investir em um título do tesouro americano de 10 anos. Este indicador chegou na semana passada em 7%, também o mesmo patamar do final de 2018:

Além disso, existe também a possibilidade de vermos mais estímulos fiscais ao redor do mundo. Esses acontecem quando os governos aumentam seus gastos, para estimular as economias. Com a eleição dos EUA em novembro, o aniversário de 100 anos do partido comunista chinês em 2021 e a Inglaterra saindo da União Europeia, a probabilidade de uma expansão fiscal global neste ano aumenta significativamente. 

Desta vez é diferente

Há, contudo, uma diferença grande desta vez. A crise do final de 2018 vinha muito mais de uma preocupação de um erro de política monetária do Fed (não cortar juros com a economia desacelerando), do que de um choque externo. 

Os impactos do corona vírus nas economias globais ainda são incertos. É possível que algumas regiões entrem em recessão neste ano. Os dados econômicos da China, que foi o epicentro da crise, já mostram uma desaceleração.

Como gestores de fundos, somos também gestores de riscos. Nesse sentido, analisamos os diferentes possíveis cenários para os mercados nas próximas semanas e meses. Os socorros dos bancos centrais reduzem o risco de uma queda desenfreada dos mercados, mas não garante que vamos voltar de forma rápida ao ritmo de crescimento que víamos antes. 

Por outro lado, não podemos tomar decisões baseadas única e exclusivamente em eventos de curto-prazo. Na Dahlia, acreditamos que o balanço de risco entre diferentes ativos e cenários cria um portifólio de investimentos mais eficiente. Nosso cenário de médio/longo prazo ainda se mantém inalterado. No Brasil, ainda acreditamos que a economia deve ter um crescimento moderado, a inflação e os juros vão continuar baixos.

Como falamos na nossa última carta, os preços das ações refletem as expectativas sobre os lucros das empresas. Em nossas conversas com as diferentes empresas da bolsa, ainda vemos um impacto modesto da epidemia no dia-a-dia delas e estimamos, por ora, um impacto baixo nas expectativas de lucro. Se isso se concretizar, é possível que os preços das ações se recuperem e até superem os patamares anteriores, ao longo dos próximos meses. 

Torcemos para que todos nossos leitores estejam bem e esperamos que o corona vírus seja um evento passageiro.

O passado

O Ibovespa teve a maior queda mensal, de 8,4% em fevereiro, desde a greve dos caminhoneiros. Esta queda foi similar ao S&P500, índice da bolsa americana, prova que seguimos os movimentos globais. Contudo, o que chama nossa atenção é que a bolsa brasileira é uma das piores no mundo no ano, tendo caído 19% em dólares.

E o futuro?

A queda das bolsas trouxe uma reprecificação interessante dos ativos, com várias oportunidades de compra em ações e em renda fixa. Vamos observar os eventuais impactos do corona vírus e as respostas dos governos. Acreditamos em uma recuperação dos preços dos ativos nos próximos meses, uma vez que os fundamentos das empresas que investimos continuam válidos. 

Esta foi uma carta atípica. Normalmente, preferimos escrever sobre o que achamos que vai acontecer no futuro e focamos menos em explicar o passado. Nos próximos meses, retomaremos a discussão sobre a pax americana, que achamos muito relevante para as nossas decisões de investimento para o futuro.

Desde o início em maio/18, o retorno acumulado do Dahlia Total Return foi de 50,2%, equivalente a 473% do CDI e 15% acima do Ibovespa, mas com um risco 48% inferior. No Dahlia FIA, desde o início em junho/19, o retorno foi de 20,8%, ou 10,9% acima do IBX.

Obrigado pela confiança,

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